segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Modus Operandi


Eu já estava com saudades. Nunca mais a mídia havia falado em um caso de corrupção de grandes proporções no Brasil. No máximo, um prefeitozinho extorquindo dinheiro de populares para construir uma pracinha aqui, outra acolá. Enfim, coisa pouca. Mas eis que o mensalinho do Distrito Federal veio à tona, fidelíssimo à sua versão nacional. Com direito, inclusive, a esconde-esconde de dinheiro nas vestes. Leonardo Prudente, presidente da Câmara Distrital do DF, preferiu como esconderijo dos maços as próprias meias. O episódio me fez lembrar o saudoso Pedro Alelaf que, reza a lenda futebolística piauiense, escondia a maior parte do dinheiro das rendas dos jogos do Parnahyba, clube do qual era presidente, nas meias. E, quando seu time ganhava, corria para não ser carregado pelos torcedores, temendo uma derrama e um flagrante. O que mais me enoja nos políticos brasileiros é o modus operandi. Entendo que até para ser ladrão o cara tem de ser profissional. Esconder grana em cueca, em meias, além de não ser higiênico, é muito cafona e amadorístico. Roubo que se preza tem de ser como ao do Banco Central de Fortaleza. Com túneis cinematográficos, logística perfeita, sigilo absoluto. Os políticos do Brasil, apesar dos anos de estágio, ainda não aprenderam a arte de pegar no alheio. Será arte?

sábado, 28 de novembro de 2009

O Rambo das Árvores


As donas de casa que residem na zona norte de Teresina já devem tê-lo conhecido. Ele circula pelas ruas do Marquês, do Centro, do Aeroporto, do Mafuá, do Por Enquanto, Cabral, Vila Operária e adjacências. Veste-se todos os dias para uma guerra imaginária. Traz consigo os apetrechos necessários: cordas, cinto, facas e um machado niquelado que mais parece uma bazuca. Aliás, ele o carrega como uma arma de grosso calibre. Não anda, marcha. Não vive, sonha. Todos o conhecem como Rambo. E é assim que ele quer ser chamado. Mas, contrário do herói homônimo de Sylvester Stallone, que trucida exércitos sozinho, usando uma metralhadora de munição contínua, o Rambo de Teresina não dispara um só tiro. Ele quebra galhos. Exatamente, o nosso personagem é um... Podador de Árvores. É esta a serventia do martelo niquelado, das cordas, do cinto, da faca de Rambo. Se a vida imita o vídeo, o nosso Don Quixote levou muito a sério a sedução da cinematografia norte-americana. Ficou aprisionado na tela. Não desligou após o filme. Não deu o necessário desconto. Luta contra besouros e percevejos camuflados de verde, como se estes fossem tanques e helicópteros vietnamitas. Imagina uma batalha urbana em que os inimigos se escondem nas árvores. Ou mesmo são elas próprias. E, assim, extirpa obstáculos e, se sobrar um bom soldo pelo serviço, melhor ainda. A exemplo do Rambo do Cinema, o Rambo de Teresina tem um destino errante e incerto. Os seus inimigos não dão trégua. Regeneram-se. Ressurgem. Revitalizam-se todos os dias. São férteis como a mente midiática de seu algoz. Eis uma briga boa.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Super Magrela


A judoca Sarah Menezes foi indicada ao Prêmio Brasil Olímpico de 2009. A piauiense pode ser eleita a melhor atleta tupiniquim do ano. O mundo já descobriu Sarah. Ela já amealhou vários títulos internacionais. Sarinha é tímida. Precisa sempre da irmã jornalista, Sâmia Menezes, para se desdobrar nas entrevistas, potencializar suas conquistas e caprichar no marketing pessoal. Mas, na essência, é introvertida, calada, fechada. Do tipo da mulher para a qual um homem desavisado apanha de graça, numa parada de ônibus. Não se dá nada pela pequena. È um naco de gente. Num chega aos 50 kg. Foi com essa impressão que eu a vi lutar pela primeira vez, em Fortaleza, há alguns anos. Subi a Serra do Ibiapaba mirando a menina, que estava há duas poltronas da minha, na delegação de judocas piauienses que rumava para a capital cearense, para a disputa de um torneio regional. Imaginava: Meu Deus, coitada! Será estraçalhada! Pobre da irmã da Sâmia! Devia voltar de Sobral! Eis que a guria sobe no tatame. De repente, a transformação. Descabela-se. Desquimona-se. Desconfigura-se. Desmonta adversário atrás de adversário, como se o título fosse batata. E era. Tava no papo magricela. E assim, se camuflando de Jeca, nasce uma legítima heroína mafrense. Já era hora.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Amarelei

O último final de semana foi marcado por duas eleições que movimentaram Teresina. OAB-PI e PT elegeram seus respectivos presidentes. Algumas semelhanças e muita disparidade entre os dois pleitos. Na Ordem dos Advogados, um tsunami amarelo denunciava, de longe, que os adversários de Sigifroi Moreno seriam massacrados. E foram. Entre os Trabalhadores, o vermelho de Fábio Novo acachapou o de Rosângela Sousa & Cia. As duas vitórias eram lógicas. Insossas até, pelo favoritismo. Mesmo os números foram parecidos. Os vencedores levaram com mais de 60% dos votos. Mas as semelhanças param por aí. Nada se compara à disputa dos causídicos piauienses. Aliás, só uma eleição para deputado ou prefeito pode servir de parâmetro. Uma de vereador ficaria devendo. Meninos eu fui, vi, votei e até venci. Mas fiquei assombrado com o poderio de minha classe. Havia bandeirolas, faixas, adesivos, camisetas, cabos eleitorais, guerra de nervos, bate-boca, tudo. Era um misto de eleição com decisão de campeonato. Uma latinha de refrigerante perdida e voadora, que me encontrou, é a prova cabal disso. Antes, eu só havia sido alvejado com algo do tipo no Lindolfo Monteiro, num Rivengo. Antes, eu só havia visto algo parecido num Hugo Napoleão X Mão Santa. Eu, que já me padronizara de amarelo para votar, saí mais amarelo ainda. De medo. Um dia os jornalistas serão fortes assim.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Panelada Cibernética


Nada postei nos últimos três dias. A emoção de fazer 36 anos me manteve reflexivo. Muitos hão de indagar: mas 36 não é número redondo, tais quais 20, 30, 40. Amigos, eu vos digo: estes números discretos são os que mais ferem, porque não cobram cerimônia, mas passam rápido como uma bala. Ainda me lembro da minha infância, quando as indagações sobre o “por vir” eram freqüentes. Todos achavam que de 2000 não passávamos, mas eu, otimista, ficava era imaginando como seria, por exemplo, 2009. Ruas escuras e desertas? Raça humana escravizada pelos marcianos? Carros elétricos e voadores cruzando o céu plúmbeo? Ou simplesmente nada? Resposta: nada. Descontados alguns progressos, como a invenção da internet, e alguns retrocessos, como o quase linchamento de uma guria que usava minissaia na universidade, não há nada de novo no front. Para o meu desapontamento, claro. Eu apostava na teletransposição, tão profetizada nos filmes de ficção científica. Era única maneira de eu e João Cláudio irmos almoçar diariamente com nossas amabilíssimas mães, em Piripiri, sem que perdêssemos nossos compromissos nas tardes mornas de Teresina. O máximo que conseguimos foi o MSN, em que a gente quase sente o interlocutor do nosso lado. Mas sequer dá para farejar o cheiro de panelada com folha de louro, coadjuvada pelo molho de pimenta malagueta, sob uma mesa de toalha quadriculada, uma garrafa d’água em formato de abacaxi e um farinheiro que já foi um vidro de Nescafé.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O olheiro da prancheta


Depois de dois vice-campeonatos, o Barras enfim foi campeão piauiense em 2008. Mas naquele ano ocorreu um fato pitoresco no time da Terra dos Governadores. O técnico Flávio Araújo (foto) e o preparador físico Eduardo Pereira comandavam o treino de apronto do Bafo, numa sexta-feira à tarde, visando à final contra o Picos. O time na mão, a torcida empolgada e a confiança reforçada. Mas uma figura estranha causou desconfiança na comissão técnica. Havia, na arquibancada, um homem com uma prancheta na mão que rabiscava mais que o Joel Santana. Experiente, Flávio Araújo prestava atenção no desempenho de seus jogadores e na mão frenética do anotador. E com isso o treinador foi se chegando para a beirada do campo, como quem não quisesse nada, na direção do intruso. Professor Eduardo entendeu o gesto do treinador e também se aproximou, cercando o Lourenço. Outros da comissão técnica e da diretoria fecharam o cerco. Todos desconfiados de que o prancheteiro listava as jogadas do time barrense. Eis que veio a abordagem. Todos falaram quase juntos: “Ô rapaz, o que você anota aí? Veio entregar nosso time para Picos? Dentro de nossa casa? Não tem medo de morrer?”. O rabiscador, amarelo como uma bicicleta dos Correios vendo aquele monte de homens, gaguejando, tremendo, levantou as mãos, soltou o bloco de anotação e gritou: “Calma, gente. Eu não sou olheiro. Sou representante comercial. Estou aqui só anotando os pedidos de venda que fiz hoje pela manhã no mercado. Podem olhar aqui”. E esparramou no chão um monte de requerimentos de caixas de Novalgina, Fontol, Dipirona, Biotônico Fontoura, Tintura Sobral e Cachaça Alemanha. Nunca mais foi a um estádio de futebol na vida.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Timon Adota um Bicampeão


Ele já foi apelidado de Trator do Beira-Rio e de Patrão do Timão. Quando atuava nos gramados tupiniquins, levava terror a craques como Rivelino, Zico, Reinaldo. Seus carrinhos, sua pegada, sua marcação o levaram a ser bicampeão brasileiro pelo Internacional (1975-1976), a jogar no Corinthians e a vestir a camisa da seleção canarinho. Luís Carlos de Melo Lopes, o Caçapava (na foto, ao lado de Falcão), vive há 20 anos no Piauí. Na verdade, no Piauí/Maranhão. Nos últimos anos, Caça fixou residência em Timon-MA, o mais piauiense dos municípios timbiras. Em entrevistas, já apontou como lugar ideal para morar, de todos os que passou, ao longo de sua carreira, as piauienses Parnaíba, Piripiri e Teresina. Contudo, é de Timon que vem a valorização ao ex-volante. O atual deputado estadual Chico Leitoa destinou verbas para a construção de um centro de treinamento que levará o nome do gaúcho ilustre. Todos aqui perguntam, em mais um aflorar de nossa baixa auto-estima, o que Caçapava veio fazer por estas bandas. Na mesma linha: por que ele ainda permanece aqui. O ex-craque sempre deu o calado como resposta, porque algumas paixões não têm razão de ser ou têm razão de serem silenciosas. A homenagem de Timon a Caçapava escancarou o romance.